“A crença do País ter vocação florestal para uma indústria também de base florestal”.
O Brasil, com suas enormes área florestal original e população, sempre teve muita intimidade com a utilização da madeira. Muito do desenvolvimento atual se deve historicamente à extração de produtos florestais, em muitos casos, de forma pouco sustentável e perdulária. Lenha, madeira serrada, produtos de construção civil etc. continuam tendo uso intensivo no País. O curioso é que praticamente inexistem pesquisas científicas e tecnológicas em muitas dessas áreas de utilização da madeira e produtos florestais. Nesses casos, quase todo o desenvolvimento tecnológico se alicerçou no conhecimento empírico, parte trazido por imigrantes, parte pelo sistema de tentativas na própria instalação industrial . Como resultado, os índices de qualidade acabam sendo modestos, com baixa agregação de inteligência ou design, e a quantidade de desperdícios é enorme.
Apesar de toda a riqueza florestal, generosamente ofertada pelo Criador, nosso País acabou por descartar a opção da madeira para construir casas e fez a opção pelo concreto/cimento. Ninguém pode negar, entretanto, que a demanda por madeira ainda é muito grande no País, quer seja para móveis e lenha para sua gigantesca população; ou como combustível para secagem de grãos, fumo, olarias; ou como matéria-prima para muitas utilizações industriais, como o caso da celulose e papel. A falta de tradição da madeira para construção de habitações na maior parte do País tem sido uma das principais causas para a descontinuidade da cadeia produtiva florestal, impedindo uma agregação maior de valor e uma maior interação entre os diferentes segmentos consumidores da madeira como matéria-prima. Países como Canadá e Estados Unidos, onde a madeira desempenha papel fundamental na habitação, encontraram criativas soluções para um aproveitamento mais integrado da madeira, destinando os resíduos dessa operação de maior valor para a fabricação de produtos que impliquem na desagregação da madeira, como é o caso de aglomerados, celulose, papel, chapas, painéis etc. Até certo ponto é compreensível a rejeição da madeira para habitações no Brasil. A tradição portuguesa sempre foi para o barro/cal e , um passo adiante, temos o concreto/cimento. Além disso, as características de um país tropical em sua maior extensão traz os perigos associados, como a durabilidade da madeira, pela sua maior susceptibilidade a cupins, fungos apodrecedores, insetos tipo brocas etc. Outro fator que sempre preocupou a população foi o perigo de incêndios e sua mais fácil propagação em habitações de madeira. Com isto, a opção para a madeira ficou para os favelados e para a população de mais alta renda em suas casas de lazer no campo e na praia. A rejeição chega a tal ponto, que muitos códigos de obras municipais impedem a construção de casas de madeira na área urbana, temerosos do risco de incêndio. Pesa negativamente ainda neste sentido a tendência cada vez maior de construção de edifícios, o que sem dúvidas é mais problemático com a madeira. Com essa falta de visão mais ampla, acabamos desprezando o enorme mercado da construção civil , e hoje está quase impossível de recuperar terreno. Admitindo que a área de habitações esteja praticamente perdida, o que se pode dizer da área moveleira? Esta também vive momentos de transição. O esgotamento de madeiras nobres e seu encarecimento fez com que a atenção se concentrasse em outros desenvolvimentos, como painéis, aglomerados, compensados, laminados, etc. Ao mesmo tempo, outros alternativos à madeira estão surgindo, e os consumidores estão aceitando bem a mudança para móveis de metal, vidro, plástico, bambu etc.
Por outro lado, nós do segmento madeireiro estamos querendo que as madeiras de reflorestamento substituam as madeiras nativas com o mesmo tipo de performance e a mais baixo custo, o que é compreensível. O perigo é querer continuar na mesma filosofia de desenvolvimento de produtos, só alterando a procedência da madeira e esquecendo de agregar tecnologia e design para competir com os alternativos. O consumidor hoje não busca mais móveis para a vida toda, mas preço, qualidade, performance, beleza, estilo. Resumo, a madeira vai ter de custar cada vez menos e agregar cada vez mais valor ao usuário, se quiser continuar competindo como matéria-prima vencedora.
O que me intriga é a falta de valorização dos produtos da madeira, até mesmo pelo próprio produtor. Não temos obtido êxito na comunicação de que a madeira é renovável; que pode ser conseguida em florestas plantadas com manejo próximo ao sustentável; que exige pouca mobilização de capital; que gera muitos empregos; que tem alta flexibilidade e diversidade de qualidade ( cores, padrões, densidades etc.) e, principalmente, que é uma das matérias-primas que menos consome energia para ser transformada em produto final na casa do consumidor. Veja-se, por exemplo, que a tendência hoje é para esquadrias e aberturas de alumínio, ferro, vidro nas construções, bem como os pisos estão migrando para cerâmicas frias, em detrimento dos parquês/tacos/tabuões. Essas tendências são muito mais comprometedoras para a saúde ambiental do planeta e muito mais consumidoras de energia. Mas estamos, inclusive nós mesmos, encantados com essas mudanças.
Definitivamente, falta por parte do setor florestal brasileiro ampla articulação e planejamento para garantir uma maior integração entre os diversos segmentos que utilizam a madeira como matéria-prima. A par disso, apesar de nosso gigantismo, temos muito baixa representatividade política/institucional e nos comunicamos muito mal com a sociedade. Somos ainda vistos como predadores da natureza, o que de certo ponto reflete muito nossas ações passadas e, em muitos casos, presentes. Por isso é que me surpreendem os níveis de resíduos gerados nas atividades industriais que têm a madeira como matéria-prima. Aliás, essa é uma regra comum para o ser humano: “onde há abundância, há desperdício”. Foi assim que se consolidou a filosofia vigente de se achar que os resíduos e as perdas são inerentes às atividades florestais e industriais. Enquanto a madeira foi abundante, acostumamo-nos a não nos importar com as perdas. Essa cultura se consolidou no comportamento do produtor florestal. Com a falta de uma política industrial que privilegie a criação de clusters ou aglomerados madeireiros, o que temos ainda é uma conversão desorganizada dos produtos já não tão abundantes das florestas, mesmo das plantadas. Recentemente, em uma palestra que apresentei sobre a importância de se planejar a indústria madeireira de forma a se constituírem clusters, para que uma empresa oferecesse às outras seus resíduos como matéria-prima e vice-versa, em um processo de just-in-time, ouvi a seguinte orgulhosa colocação de um dos participantes: “na minha terra temos um polo madeireiro com mais de uma dúzia de serrarias em plena produção, trazendo progresso à região”. A diferença entre polo, como apresentado, e cluster, fica evidente. No polo madeireiro, teremos muita madeira consumida como matéria-prima devido à escala de produção aumentada, mas os resíduos também se acumularão para descarte. No cluster, as costaneiras, serragens, sobras de madeira, cascas etc. tudo é aproveitável. Uma empresa servindo a outra: como resultado, o cluster produzirá móveis, madeira serrada, painéis, cavacos, lápis, palitos de fósforo, cabos de vassouras, aglomerados, laminados etc. Os resíduos de madeira, que não tiverem oportunidades mais nobres, poderão ser usados como biomassa ou para produção de carvão vegetal. Além disso, há ainda a possibilidade de se integrarem outros produtos da floresta, como óleos essenciais, resinas, tanino, etc. A integração das atividades de produção na cadeia oportuniza a diminuição de estoques intermediários, otimização da logística e de fluxos, redução do impacto ambiental, agregação de valor aos produtos e, com isso, margens e resultados mais interessantes ao acionista. Há ainda inúmeras vantagens sociais, já que agregação de valor implica em empregos de melhor qualidade.
Conhecidas essas características, o que considero ótimo em termos de planejamento da indústria de base florestal, vamos voltar a focar o nosso desenvolvimento na industrialização da madeira. Como ele tem sido promovido de forma aleatória, baseado no ultrapassado conceito da chamada “vocação florestal” e também de forma segmentada/fragmentada, os ganhos em inovações e capacitação produtiva têm sido minimizados. Para mim , vocação florestal é um conceito tipicamente de conotação extrativista. Isto porque existe enquanto existirem as florestas. Quando as florestas acabam, a região pode ter qualquer outra vocação, seja para agricultura de soja, café, fumo ou milho; ou para indústria de eletrônicos, automóveis etc. Pode, inclusive, se optar, continuar com florestas plantadas, uma alternativa a mais, dentre as “vocações”. A falta de coordenação e orientação para resultados globais sustentados tem feito com que cada um se preocupe em olhar o seu próprio negócio, sem ver as inúmeras oportunidades que as parcerias, a integração via alianças estratégicas e a verticalização oferecem. Os exemplos ofertados pelos programas cooperativos de pesquisa da área florestal jamais foram assimilados pelas áreas de tecnologia da madeira, exceto alguns esporádicos e prementes exemplos de casos, como o programa “GT-Euca” do Centro Técnico de Celulose e Papel, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), já há mais de 20 anos.
Quando olhamos a indústria de celulose e papel, vemos uma indústria preocupada em ter a madeira como matéria-prima homogênea e barata para ser demolida; em ter suas células individualizadas, para depois serem montadas em folhas à nossa conveniência. Desde que passamos a utilizar a madeira como fonte de fibras para a fabricação do papel, passamos a acreditar que somos uma indústria de base florestal. Esquecemos de olhar o mundo competitivo ao nosso redor, que também se interessa em fazer folhas de outros materiais para embalar, limpar, escrever, imprimir etc. Como resultado, vemos esse mundo alternativo como ameaça à nossa indústria de base florestal e não conseguimos nos ver como fabricantes de folhas para essas finalidades, não importando qual seja a matéria-prima. Se assim tivéssemos feito, além de termos tido muito mais oportunidades, estaríamos também dominando outras tecnologias competitivas, como a do plástico, do non-woven, do laminado de metais etc. É mais ou menos como se sentir fabricantes de lâmpadas, quando poderíamos ser de meios de iluminação.
Há cerca de 20 anos, quando começaram a despontar os não-tecidos e a extrusão do plástico, a TAPPI-Technical Association of the Pulp and Paper Industry / USA procurou criar divisões técnicas para essas novas tecnologias. A verdade é que essas áreas acabaram por crescer isoladas, não se integrando às demais áreas papeleiras. Conclusão: por uma visão até certo ponto cabrestante de que somos uma indústria de base florestal ou de que temos uma vocação florestal no nosso amado País, esquecemos de olhar as oportunidades que temos em outras áreas afins ou as chances de alianças dentro ou fora de nossa cadeia produtiva.
Tenho ainda esperanças de que possamos articular melhor nossas forças e potenciais para desenvolver tecnologias e alianças que promovam o desenvolvimento sustentável de nosso setor florestal e industrial. Gostaria de ver nosso setor entremear-se com outros setores produtivos e ter uma base de sustentação muito mais resistente como só aquela conseguida com as raízes das árvores. Elas são importantes, não há dúvidas, mas hoje, com a ampla diversificação de serviços e produtos, precisamos atuar muito mais com visão matricial do que focal. Por isso que discordo dessa exagerada visão de “foco” pregada por alguns gurus da administração. Amigos, se quiserem focar como tem sido sugerido, pelo menos usem óculos bifocais e, de vez em quando, passeiem de helicóptero.
Celso Foelkel Fonte: http://www.painelflorestal.com.br |